Famílias multiafetivas: como garantir proteção jurídica para um trisal

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A pluralidade das formas de amar e construir família é uma realidade cada vez mais presente na nossa sociedade. Entre essas novas configurações, as famílias multiafetivas — popularmente conhecidas como trisais — têm ganhado destaque, gerando dúvidas sobre seu reconhecimento e proteção jurídica no Brasil.

Todo arranjo familiar baseado em afeto, respeito e união merece ser compreendido e, quando possível, amparado pela lei. Embora o Código Civil não preveja expressamente as uniões poliafetivas, a jurisprudência e a doutrina têm avançado no reconhecimento de direitos decorrentes dessas relações.

Neste artigo, você vai entender como a lei brasileira trata as uniões poliafetivas, quais são os requisitos para a proteção legal e quais documentos podem formalizar e salvaguardar os interesses de quem vive em um trisal.


O que são as famílias multiafetivas

As famílias multiafetivas são arranjos familiares formados por mais de duas pessoas que mantêm uma relação afetiva, estável e pública, com o objetivo de constituir família. O exemplo mais comum é o trisal — uma relação entre três pessoas.

As características:

  • Relação afetiva entre três ou mais pessoas.
  • Convivência estável e duradoura.
  • Relação pública e conhecida socialmente.
  • Projeto de vida em comum.

A realidade social:

  • As famílias multiafetivas são uma realidade crescente na sociedade.
  • O Direito de Família precisa se adaptar a essas novas configurações.
  • A proteção jurídica é uma necessidade concreta para quem vive nessas relações.

O desafio legal:

  • O Código Civil não prevê expressamente as uniões poliafetivas.
  • A legislação tradicional foi pensada para relações entre duas pessoas.
  • Mas a jurisprudência e a doutrina têm avançado no reconhecimento de direitos.

A família multiafetiva existe na prática — e o Direito está aprendendo a reconhecê-la.


O que diz a lei brasileira

Para entender a proteção jurídica das uniões poliafetivas, é preciso conhecer o cenário legal:

O Código Civil:

  • O Código Civil prevê a união estável entre duas pessoas (art. 1.723).
  • Ele não prevê expressamente as uniões com mais de duas pessoas.
  • A ausência de previsão legal gera insegurança e dúvidas.

A Constituição Federal:

  • A Constituição reconhece a família como base da sociedade (art. 226).
  • Ela reconhece a união estável entre homem e mulher como entidade familiar.
  • A jurisprudência já estendeu esse reconhecimento às uniões homoafetivas.

A jurisprudência:

  • O STF reconheceu a união homoafetiva como entidade familiar (2011).
  • O STF reconheceu a multiparentalidade (2016).
  • Decisões recentes, como a de São Paulo, reconheceram a união estável de um trisal.

O cenário atual:

  • Não há lei específica sobre uniões poliafetivas.
  • Mas o Judiciário vem reconhecendo direitos caso a caso.
  • A doutrina defende a proteção com base no afeto e na dignidade.

O Direito caminha no sentido de proteger as relações afetivas, mesmo sem previsão legal expressa.


Os requisitos para a proteção legal

Para buscar a proteção legal de uma união poliafetiva — como partilha de bens, direitos sucessórios ou previdenciários — é essencial comprovar os requisitos da união estável, de forma similar à relação tradicional:

1. Estabilidade.

  • A relação deve ser estável e duradoura.
  • Não basta um relacionamento passageiro.
  • A convivência contínua é essencial.

2. Publicidade.

  • A relação deve ser pública e conhecida socialmente.
  • Não pode ser uma relação oculta.
  • A apresentação como família perante terceiros é importante.

3. Intenção de constituir família.

  • Os envolvidos devem ter o objetivo de constituir família.
  • O projeto de vida em comum é essencial.
  • A convivência com obrigações e responsabilidades mútuas.

4. Afeto e respeito.

  • A relação deve ser baseada em afeto, respeito e união.
  • A ausência de vício ou coação.

Como comprovar:

  • Documentos que demonstrem a convivência (contas, contratos, correspondências).
  • Testemunhas que confirmem a relação.
  • Declarações e escrituras públicas.
  • Registros de vida em comum.

A comprovação dos requisitos é a chave para o reconhecimento dos direitos.


A escritura pública de união poliafetiva

Uma das ferramentas mais importantes para formalizar uma união poliafetiva é a escritura pública de declaração de união poliafetiva.

O que é:

  • É um documento lavrado em cartório.
  • Declara a existência da união entre os envolvidos.
  • Registra a vontade, as regras e os acordos entre as partes.

O que a escritura faz:

  • Formaliza a relação perante terceiros.
  • Documenta a vontade dos envolvidos.
  • Registra as regras de convivência, bens e partilha.
  • Facilita a prova dos requisitos da união estável.

A questão do CNJ:

  • O CNJ, desde 2018, proíbe os cartórios de lavrarem escrituras de união poliafetiva.
  • Mas a Justiça pode reconhecer a validade desses documentos.
  • Decisões recentes reconheceram a validade de contratos de união estável entre três pessoas.

Importante: A escritura pública, mesmo diante do veto do CNJ, é uma ferramenta de prova e formalização — e pode ser validada judicialmente.


O contrato de convivência

Além da escritura pública, o contrato de convivência é uma ferramenta essencial para organizar a relação poliafetiva.

O que o contrato pode prever:

  • A contribuição de cada um para as despesas e o patrimônio.
  • As regras de convivência e de tomada de decisões.
  • A divisão de bens em caso de dissolução.
  • A destinação do patrimônio em caso de falecimento.
  • Os direitos e deveres de cada envolvido.

Por que é importante:

  • Organiza a relação e evita conflitos.
  • Documenta a vontade das partes.
  • Protege os bens e os direitos de todos.
  • Facilita o reconhecimento judicial.

Dica: O contrato deve ser bem redigido, com cláusulas claras e completas, e idealmente com o apoio de um advogado especializado.


Os direitos que podem ser protegidos

Com a formalização e o reconhecimento, é possível proteger uma série de direitos:

1. Partilha de bens.

  • A divisão do patrimônio adquirido durante a relação.
  • O regime de bens pode ser definido no contrato.

2. Direitos sucessórios.

  • O direito à herança entre os companheiros.
  • O planejamento sucessório (testamento, doação).

3. Direitos previdenciários.

  • A pensão por morte e outros benefícios.
  • O reconhecimento da união como base para os direitos.

4. Direitos de saúde.

  • A inclusão como dependente em planos de saúde.
  • A tomada de decisões em caso de incapacidade.

5. Direitos de convivência.

  • As regras de convivência e de responsabilidades.
  • A proteção da relação e dos envolvidos.

A mensagem: A proteção jurídica é construída — com documentos, provas e, quando necessário, decisão judicial.


Os desafios na prática

Apesar dos avanços, as uniões poliafetivas enfrentam desafios concretos:

1. Falta de previsão legal.

  • A ausência de lei específica gera insegurança.
  • Cada caso depende do reconhecimento judicial.

2. Veto do CNJ.

  • A proibição administrativa dificulta a formalização em cartório.
  • Mas não impede o reconhecimento pela Justiça.

3. Resistência de órgãos administrativos.

  • INSS, planos de saúde e outros órgãos podem resistir ao reconhecimento.
  • A conquista de direitos depende de luta caso a caso.

4. Preconceito e desinformação.

  • O estigma social e a falta de informação dificultam a proteção.
  • A orientação jurídica é essencial.

A superação:

  • A jurisprudência vem avançando no reconhecimento.
  • A doutrina defende a proteção com base no afeto.
  • A organização documental e a ação judicial são os caminhos.

Os desafios existem, mas não impedem a proteção — exigem estratégia e persistência.


Os direitos na prática: resumo

AspectoSituação atualCaminho
ReconhecimentoSem lei específicaDecisão judicial
FormalizaçãoVeto do CNJ ao cartórioEscritura validada na Justiça
Partilha de bensPossível com contratoContrato de convivência
HerançaPossível com planejamentoTestamento, doação
PrevidênciaResistência administrativaAção judicial
Planos de saúdeDepende da operadoraNegociação ou ação

Como um advogado pode ajudar

A proteção jurídica de uma família multiafetiva exige planejamento e atuação especializada. Um advogado de família pode:

  • Orientar sobre os requisitos e as possibilidades legais.
  • Redigir o contrato de convivência e a declaração de união.
  • Buscar o reconhecimento judicial da união.
  • Planejar a sucessão (testamento, doação, beneficiários).
  • Atuar na conquista de direitos previdenciários e de saúde.
  • Defender os direitos de todos os envolvidos em cada caso.

Se você vive em um trisal, ou em outra configuração multiafetiva, saiba: a proteção é possível — com planejamento, documentos e o apoio jurídico certo.


Perguntas frequentes (FAQ)

As uniões poliafetivas são reconhecidas no Brasil? Não há lei específica, mas a jurisprudência e a doutrina têm avançado no reconhecimento caso a caso. Decisões recentes reconheceram uniões de trisais.

O Código Civil prevê as uniões poliafetivas? Não. O Código Civil prevê a união estável entre duas pessoas. As uniões com mais de duas pessoas dependem de reconhecimento judicial.

Quais são os requisitos para a proteção? Estabilidade, publicidade e intenção de constituir família — os mesmos requisitos da união estável tradicional, comprovados caso a caso.

O que é a escritura pública de união poliafetiva? É um documento lavrado em cartório que declara a união e formaliza as regras entre os envolvidos. Mesmo com o veto do CNJ, pode ser validada judicialmente.

Quais direitos podem ser protegidos? Partilha de bens, direitos sucessórios, previdenciários, de saúde e de convivência, entre outros.

Como um advogado pode ajudar? Orientando, redigindo contratos, buscando o reconhecimento judicial, planejando a sucessão e defendendo os direitos dos envolvidos.


Conclusão

As famílias multiafetivas — os trisais — são uma realidade cada vez mais presente na sociedade, e todo arranjo baseado em afeto, respeito e união merece ser compreendido e, quando possível, amparado pela lei.

Embora o Código Civil não preveja expressamente as uniões poliafetivas, a jurisprudência e a doutrina têm avançado no reconhecimento de direitos. Para buscar a proteção legal — partilha de bens, direitos sucessórios ou previdenciários — é essencial comprovar a estabilidade, publicidade e intenção de constituir família, de forma similar aos requisitos da união estável tradicional.

Documentos como escrituras públicas de declaração e contratos de convivência são ferramentas importantes para formalizar e salvaguardar os interesses de todos. E, quando necessário, a Justiça pode reconhecer e proteger essas relações.

Se você vive em um trisal, ou em outra configuração multiafetiva, não fique sem proteção. Conheça os caminhos legais que podem assegurar a segurança e o reconhecimento da sua família — seja qual for a sua composição.

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