Trisal e união homoafetiva: direitos e reconhecimento

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A história do reconhecimento das relações homoafetivas no Brasil é uma das mais bonitas do direito de família. Em pouco mais de uma década, casais do mesmo sexo saíram da invisibilidade total para conquistar o direito à união estável, ao casamento e à formação de famílias, com os mesmos direitos e deveres de qualquer outro casal.

Mas, para quem vive em um trisal homoafetivo (três pessoas do mesmo sexo, ou qualquer configuração poliafetiva que envolva pessoas LGBT+), a luta é outra: enquanto a união de duas pessoas do mesmo sexo foi reconhecida, a união de três pessoas, do mesmo sexo ou não, ainda não tem previsão legal.

Neste artigo, você vai entender a trajetória do reconhecimento das uniões homoafetivas, qual é a situação jurídica atual dos trisais homoafetivos e quais caminhos existem para proteger essa relação.


A conquista histórica: o reconhecimento das uniões homoafetivas

A virada começou em 5 de maio de 2011, quando o Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento conjunto da ADI 4277 e da ADPF 132, reconheceu por unanimidade a união homoafetiva como entidade familiar, com os mesmos direitos e deveres das uniões heterossexuais.

O relator, ministro Ayres Britto, fundamentou a decisão no princípio da dignidade da pessoa humana, na igualdade e na pluralidade de entidades familiares prevista no artigo 226 da Constituição. A decisão foi histórica: pela primeira vez, o Estado brasileiro reconhecia formalmente o afeto entre pessoas do mesmo sexo como base de uma família.

Os marcos seguintes foram rápidos:

  • Outubro de 2011: o Superior Tribunal de Justiça (STJ), no REsp 1.183.378/RS, reconheceu a possibilidade de casamento civil homoafetivo, superando a limitação à união estável.
  • 14 de maio de 2013: o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou a Resolução 175/2013, proibindo os cartórios de recusarem a habilitação e celebração de casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou a conversão de união estável em casamento.

Em menos de dois anos, casais homoafetivos conquistaram, por decisões judiciais e normativas, o que décadas de projeto de lei não tinham garantido. A união homoafetiva passou a ter regime de bens, herança, pensão, adoção e todos os direitos de uma família reconhecida.


O papel do afeto: por que o termo “homoafetividade”

Um detalhe importante dessa história é o conceito que a impulsionou: a homoafetividade. O termo, popularizado pela jurista Maria Berenice Dias, vice-presidente do IBDFAM, foi criado para marcar que o que identifica uma relação familiar é o afeto, e não a orientação sexual.

A expressão “homoafetividade” uniu as palavras “homossexualidade” e “afetividade” para ressaltar que, em uma relação entre pessoas do mesmo sexo, o que importa é o vínculo afetivo, não a sexualidade. Famílias são homoafetivas e heteroafetivas, todas baseadas no amor e no cuidado.

Esse conceito é a ponte que conecta a luta homoafetiva à luta poliafetiva: se o afeto é o que define a família, o sexo e o número de participantes não deveriam importar. É exatamente esse argumento que a doutrina usa para defender o reconhecimento dos trisais.


E o trisal homoafetivo? A situação jurídica atual

Apesar da conquista das uniões homoafetivas, o trisal homoafetivo enfrenta uma situação jurídica distinta. Enquanto a união de duas pessoas do mesmo sexo foi reconhecida pelo STF em 2011, a união de três pessoas não tem reconhecimento legal, independentemente da orientação sexual dos envolvidos.

O que a lei diz:

  • A união estável é regulada entre duas pessoas (art. 1.723 do Código Civil).
  • O casamento também é regulado entre duas pessoas, e a bigamia é crime.
  • O CNJ, em 2018, proibiu os cartórios de lavrarem escrituras de união poliafetiva como entidade familiar.

Ou seja, um trisal homoafetivo tem hoje a mesma situação de um trisal heteroafetivo: a convivência é legal, mas não é reconhecida como família, e os integrantes ficam sem os direitos automáticos de herança, pensão, alimentos e regime de bens.

O que isso significa na prática:

  • Não há direito automático à herança entre os parceiros.
  • Não há direito automático à pensão por morte.
  • Não há regime de bens automático.
  • Não há inclusão automática como dependente em plano de saúde.

A conquista de 2011 reconheceu o direito de duas pessoas do mesmo sexo formarem uma família. A luta dos trisais, homoafetivos ou não, é por estender esse reconhecimento ao afeto plural.


A comparação: o que a luta homoafetiva ensina

A trajetória do reconhecimento das uniões homoafetivas é uma fonte de esperança para os trisais. Ela mostra que o direito de família brasileiro evolui com a sociedade, ainda que com atraso.

As lições da luta homoafetiva:

1. O reconhecimento pode vir pela Justiça. A união homoafetiva foi reconhecida pelo STF, não pelo Congresso. A jurisprudência tem o poder de preencher lacunas legais quando os princípios constitucionais exigem.

2. O afeto é o elemento central. O que fundamentou o reconhecimento foi o afeto como elemento identificador da família. Esse mesmo fundamento pode ser usado para os trisais.

3. A sociedade pressiona o direito. A mudança veio depois de décadas de luta social, visibilidade e organização da comunidade LGBT+. A visibilidade dos trisais pode ter o mesmo efeito.

4. O conservadorismo é resistente, mas não vence para sempre. Assim como a união homoafetiva enfrentou resistência, os trisais enfrentam hoje a mesma resistência, baseada na monogamia como “elemento estrutural”. A história mostra que esse tipo de resistência pode ser superada.


Os direitos que podem ser conquistados hoje

Mesmo sem o reconhecimento legal do trisal, os integrantes podem proteger a relação por outros caminhos, todos independentes do reconhecimento da união:

1. Contrato de convivência. Documenta a vontade de todos, organiza direitos e deveres e estabelece regras patrimoniais. É a ferramenta mais importante disponível.

2. Planejamento sucessório. Testamento, doações e indicação de beneficiários em seguros e previdência privada garantem a destinação do patrimônio, já que não há direito sucessório automático.

3. Documentação de contribuições. Comprovantes de pagamentos e transferências sustentam o reconhecimento da sociedade de fato em caso de dissolução.

4. Multiparentalidade. Se há filhos criados por mais de dois adultos, é possível buscar o reconhecimento de múltiplos vínculos parentais, garantindo direitos e deveres a todos.

5. Ações judiciais estratégicas. Em casos concretos, a Justiça pode reconhecer sociedade de fato, dividir pensão entre companheiras de uniões paralelas ou conceder alimentos excepcionais, com base na dignidade da pessoa humana e na afetividade.


Os instrumentos na prática: resumo

DireitoSituação atualComo proteger
União estávelNão reconhecida para 3 pessoasContrato de convivência
HerançaNão automáticaTestamento, doação, seguro de vida
Pensão por morteNão automáticaPrevidência privada, documentação da dependência
AlimentosNão automáticoContrato, ação por dignidade em casos excepcionais
Regime de bensSem regime automáticoDocumentação de contribuições, sociedade de fato
FilhosMultiparentalidade possívelAção de reconhecimento de múltiplos vínculos

Como um advogado pode ajudar

Cada trisal é único, e a estratégia ideal depende de fatores como patrimônio, existência de filhos e acordos internos. Um advogado especializado em direito das famílias e sucessões pode:

  • Estruturar o contrato de convivência adequado à realidade da relação.
  • Planejar a sucessão com testamento, doações e beneficiários.
  • Orientar sobre multiparentalidade quando houver filhos.
  • Ajuizar ações para reconhecimento de direitos em casos concretos.
  • Atuar na proteção patrimonial com documentação de contribuições.

O planejamento feito hoje evita injustiças irreversíveis amanhã. E o primeiro passo é conversar com um advogado.


Perguntas frequentes (FAQ)

União homoafetiva é reconhecida no Brasil? Sim. Desde 2011, o STF reconheceu a união homoafetiva como entidade familiar (ADI 4277 e ADPF 132), e desde 2013 o casamento homoafetivo é garantido pela Resolução 175 do CNJ.

Trisal homoafetivo tem os mesmos direitos? Não. O reconhecimento de 2011 vale para uniões de duas pessoas. O trisal, homoafetivo ou não, não tem reconhecimento legal como entidade familiar.

Trisal homoafetivo é crime? Não. A convivência entre três ou mais pessoas, do mesmo sexo ou não, é legal e garantida pela Constituição. O que não existe é o reconhecimento formal.

Como proteger um trisal homoafetivo? Com contrato de convivência, planejamento sucessório (testamento, doação), documentação de contribuições e, quando há filhos, multiparentalidade.

A luta homoafetiva pode inspirar o reconhecimento dos trisais? Sim. A história mostra que o direito de família brasileiro evolui com a sociedade, e que o reconhecimento pode vir pela Justiça, baseado no afeto como elemento identificador da família.

O que diz a doutrina sobre o tema? Juristas como Maria Berenice Dias defendem que o afeto, e não o sexo ou o número de participantes, é o que define uma família. Esse fundamento sustenta o reconhecimento dos trisais.


Conclusão

A história do reconhecimento das uniões homoafetivas no Brasil é uma prova de que o direito de família evolui com a sociedade. Em 2011, o STF reconheceu que o afeto entre pessoas do mesmo sexo forma uma família; em 2013, o casamento homoafetivo se tornou um direito garantido.

Para os trisais homoafetivos, a luta continua. O reconhecimento de 2011 valeu para duas pessoas; o afeto plural, entre três ou mais, ainda espera por reconhecimento. Mas a trajetória homoafetiva ensina que o reconhecimento é possível, e que a Justiça pode preencher as lacunas da lei quando os princípios constitucionais exigem.

Enquanto o reconhecimento não chega, a proteção pode ser construída: contratos de convivência, planejamento sucessório, documentação de contribuições e multiparentalidade são instrumentos concretos que garantem segurança jurídica a quem vive em um trisal.

Se você vive em um trisal homoafetivo e quer entender seus direitos ou estruturar a proteção da sua relação, converse com um advogado especializado. Cada caso exige análise específica, e a orientação correta faz toda a diferença.

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